Beatriz Leite: Mãe empreendedora: a primeira mulher a se cansar

Mês das mães finalizando, e muitas delas receberam parabéns e presentinhos, junto da carga diária de trabalho com a casa e filhos, que nem é remunerado




Por Beatriz Leite*


Mês das mães finalizando. Muitas delas receberam parabéns e presentinhos, junto da carga diária de trabalho com a casa e filhos, que nem é remunerado e nem reconhecido na medida que deveria. Isso talvez explique o porquê, conforme relatório de Tendências em Pesquisa do Google divulgado em abril, a busca pelo termo “mãe cansada” esteja subindo vertinosamente nos últimos anos. [Quebra da Disposição de Texto][Quebra da Disposição de Texto]Ao mesmo tempo, a mesma pesquisa indica que houve um boom na procura por “Mulheres inspiradoras”, algo nunca visto antes! Termos como “Mulheres que mudaram o mundo”, “Mulheres na matemática” ou ainda “Primeira mulher a pisar na Lua”.

Buscamos as referências, as pioneiras, mulheres ímpares, de caráter ilibado, para nos inspirarmos. Que bom que temos enxergado e reconhecido tudo que as mulheres têm construído na sociedade! Mas na busca pela inspiração perfeita, onde ficam as mães empreendedoras nessa? Aquela que se equilibra para pagar as contas, tem um negócio parecido com 50% das demais (revenda de lingerie, artesanato ou produção de bolos) e, no final do dia, sente que mal da conta de fazer a comida para seus filhos? Será que ela apareceria nessas buscas? Seria destaque em alguma reportagem?

O que não vem escrito junto dos resultados sobre a primeira mulher a conquistar qualquer coisa é como ela pode ter se cansado mentalmente para isso e quantas outras podem ter se perdido no caminho pelo mesmo motivo.

As pesquisas da RME demonstram que 61% das empreendedoras são mães e 60% não tem funcionário. Ou seja, elas fazem tudo (no negócio e, provavelmente, em casa também) sozinhas. Na pandemia, sabemos que esse cenário se acirrou: 7 em cada 10 empreendedoras declararam sentir aumento no trabalho doméstico e 65% que isso tem atrapalhado seu negócio (Pesquisa RME).

Ou seja, essa carga dobrada que as mães empreendedoras carregam não ajuda nem a elas e nem nos inspira. Mas no final do dia, quando buscamos pelas mulheres inspiradoras procuramos aquelas que escalaram montanhas sem precisar de ninguém ou construíram impérios com “seu próprio esforço”. Esquecendo não só que não é a realidade da maioria como, na verdade, para essa empreendedora vencer é muito importante contar com redes de apoio. E nem precisa ser uma rede nacional como a RME. Pode vir no formato de sócias, amigos, familiares, companheiros e companheiras, investidores, coletivos locais.

Precisamos complementar a busca por “primeira mulher a” com “como fortalecemos juntos essa mulher”. Uma jornada que pode começar nas grandes ferramentas de busca da internet, mas deve seguir na vida real, reconhecendo que a vida não é feito de heroínas e guerreiros solitários. A empreendedora vai vencer quando ultrapassarmos as barreiras junto com elas, dividindo as tarefas, derrotas e as glórias.

*Beatriz Leite é gestora de projetos, formada em Gestão Ambiental pela USP e pós-graduada em Gestão de Projetos pelo Senac. Atua há quase 10 anos em negócios e organizações sociais, nas áreas de longevidade, desenvolvimento local, cultura e empoderamento feminino

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